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Afetar-se ou Envolver-se?





Um dos momentos centrais dos nossos workshops Relações Simplificadas é quando apresentamos um quadro que mostra a diferença entre “deixar-se afetar” e “deixar-se envolver”.



O quadro tem duas colunas. Na coluna intitulada Deixar-se afetar temos a situação em que há compreensão em relação ao sofrimento dos outros, logo abaixo, a percepção das emoções que são despertadas -em você e no outro- durante uma conversa ou encontro, representando a possibilidade de uma relação empática. A segunda coluna, intitulada Deixar-se envolver, fala de uma relação em que as pessoas se misturam. Nesse caso elas sofrem junto, mesmo que o problema seja apenas de uma delas. Nesta situação de envolvimento é comum sermos dominados pelas emoções do outro ou dominado pelas emoções que o outro provoca em nós a partir do que ele comunica. Nesse caso, sofremos uma espécie de psicopatia compartilhada, uma espécie de enlouquecimento conjunto, onde perdemos contato com a realidade e tomamos o partido do outro, as dores do outro ou até mesmo as responsabilidades do outro para nós mesmos. Apesar da simplicidade desta distinção, para melhor entendê-la precisamos lembrar do fato de que todo mundo que passa pela nossa vida gerará um impacto sobre nós, nos afetará.


Isso porque estamos todos sob a influência do Inconsciente, pois existe algo chamado comunicação inconsciente - sobre a qual tratamos neste vídeo. Essa afetação mútua que acontece sempre que estamos em uma relação e é algo inevitável, inerente à condição do nosso psiquismo.


Então, em que essa distinção apresentada no quadro nos ajuda? Quando o encontro é tranquilo, prazeroso, não costumamos sentir a necessidade de pensar muito nele. Mas quando o outro gera ruídos, incômodos e questões em nós, aí é muito importante começar a perceber a distinção entre se afetar e se envolver. A coluna Deixar-se afetar fala de uma aceitação dessa condição das relações. Às vezes, o outro traz uma história difícil, de sofrimento ou conflito. Por mais que não queiramos sofrer nenhuma influência do que se passa com o outro, quando aceitamos que isso é inevitável abre-se a possibilidade para compreender aquele sofrimento e ser empático. Por outro lado, se nos envolvemos, sofremos junto. E então, embora muitas vezes não percebamos, nos vemos diante de um grande perigo porque isto pode gerar uma questão, um problema maior ainda. Isto é, ao invés de haver uma pessoa sofrendo, seremos duas. E vamos perdendo o discernimento, nossa capacidade de raciocinar claramente e deixando de poder ajudar a pessoa que nos procurou para falar ou pedir ajuda.

Se conseguimos perceber o que acontece em nós a partir da relação com o outro, ficamos mais próximos à esta ideia da empatia. Este é um termo que a gente usa bastante aqui no blog e também no canal. Aliás, temos um vídeo falando sobre isso; se você ainda não assistiu, assista aqui.


Então, podemos realmente nos aproximar do outro e compartilhar a experiência decorrente da nossa relação. Mas, se nos envolvemos, a única coisa que acontece é uma psicopatia compartilhada – ficamos os dois girando em cima de um sofrimento, um problema, uma questão, uma discussão. Procurar manter-se apenas do lado da afetação não quer dizer ser indiferente, longe disso. Nem virar uma pedra de gelo ou uma pessoa só racional. Mas permitir uma troca sincera, acolhedora e empática sem cair no sofrimento profundo ou achar que dá pra levar os problemas do mundo pra casa. Podemos comparar com a ideia da máscara de oxigênio do avião. No aviso antes de voar ouve-se: “Em caso de descompressão da cabine, máscaras de oxigênio cairão. Se houver uma criança ao seu lado, coloque a máscara primeiro em você e somente depois auxilie a criança.”


Confesso que, antes de ter filho, eu ouvia essa instrução e não exibia qualquer reação. Porém, depois que meu filho nasceu, percebi um sentimento completamente novo, de angústia: Como assim, colocar a máscara primeiro em mim? Se acontece uma coisa dessas, parece que o natural, para uma mãe, seria colocar primeiro no filho. Isto é, entrei no campo do “envolver-se”. Quer dizer, é muito provável que, no caso de uma emergência em pleno vôo, a criança fique desesperada com a situação. Provavelmente eu acabaria me desesperando junto e no final, provavelmente, nós dois acabaríamos desmaiando sem oxigênio. É a mesma coisa em uma relação. Tendemos a ser dominados pelas nossas emoções, tomamos o impacto do que está acontecendo com o outro como um convite para mergulhar naquele campo, e acabamos nos perdendo junto. Se você conseguir ficar no campo do “afetar-se”, provavelmente irá observar um resultado mais positivo para você e para a relação. Muitas vezes, não conseguimos ficar nesse campo porque vivemos uma idealização de que é realmente preciso sofrer com o outro. Aqui no Relações Simplificadas, trabalhamos muito com profissionais de saúde. Nessa área, diante das relações com pacientes, que são sempre muito intensas, muitos profissionais tendem aos extremos: Ou se envolvem, sofrendo mesmo com o paciente, levando o paciente “para casa”, pois acreditam que essa é uma atitude necessária para ser um bom profissional; ou então vão para o extremo oposto, que é o que eles chamam de “pedra de gelo”, isto é, tentar ignorar que são afetados, tentar fazer uma parede entre você e o outro. Então, no final, acabam sofrendo de estresse ou burnout, ou seja, explodem para dentro – o que também acaba gerando sofrimento! Então, afetar-se é o caminho do meio, uma maneira simples e consistente para lidar com os encontros na sua vida. Saber que eles te tocam, que as pessoas vão te fazer sentir coisas, e que a vida delas é importante, mas que é delas. A melhor maneira de compartilhar com alguém é pela troca, e não pelo mergulho nessa outra vida.

Esperamos que esse texto seja bastante útil pra você. E se você quiser baixar essa tabelinha que foi exibida no início desta matéria, clique aqui.




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