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Burnout – Mudanças Necessárias


Foto: Aarón Blanco Tejedor/Unsplash @healing_photographer

O tema Burnout não está na moda à toa. Estamos enfrentando sérias dificuldades como organizações e como indivíduos para lidar com o esgotamento físico e mental no trabalho e o volume de pessoas diagnosticadas com essa síndrome não para de aumentar. Por isso, resolvemos nos debruçar sobre o tema e compartilhar nossas reflexões em três textos (e três episódios do nosso canal Relações Simplificadas no YouTube). Você pode ler o TERCEIRO texto, “Burnout – Mudanças Necessárias”, logo abaixo.


Leia o PRIMEIRO texto, “Apresentando a Síndrome de Burnout” no link: https://www.relacoessimplificadas.com.br/post/burnout1


Leia o SEGUNDO texto, “Burnout, como chegamos até aqui” no link: https://www.relacoessimplificadas.com.br/post/burnout2


Boa leitura e obrigado pela companhia!


Burnout – Mudanças Necessárias


Nosso objetivo, neste terceiro e último texto sobre o tema, é falar das mudanças que pessoas e organizações precisam fazer para que tenhamos menos casos de Burnout.

De antemão: não é simples, mas pode ser simplificado. Há solução, e vamos falar sobre ela. Ou melhor, sobre elas. Sobre um tripé estratégico para gerar mudanças, partindo do entendimento da dinâmica psíquica das pessoas no trabalho.


Nos outros dois textos, ressaltamos que Síndrome de Burnout é um tipo de sofrimento que surge a partir da nossa interação com o trabalho. Portanto, podemos nos questionar: o que acontece no nosso mundo interno enquanto trabalhamos? Qual é a dinâmica psíquica que ocorre?


Para responder, primeiramente, devemos explorar esse termo: a dinâmica psíquica. Freud explica que a nossa mente pode ser entendida de um ponto de vista dinâmico. Podemos traçar um paralelo com a termodinâmica, que explica o funcionamento das máquinas a vapor a partir da pressão e da transformação dessa pressão em força e energia. A partir dessa analogia, os fenômenos do nosso mundo interno seriam o resultado de conflitos que se formam a partir de forças que exercem uma certa pressão sobre o nosso aparelho psíquico.


Quando nos envolvemos com o trabalho, mobilizamos energia psíquica, seja pra pensar, decidir, prestar atenção na atividade que estamos fazendo, etc. de maneira que essa energia passa a fazer parte dessas dinâmicas e dos conflitos do nosso mundo interno.

Essa dinâmica envolve, por exemplo, tudo aquilo que precisamos reprimir na hora de ir trabalhar: a vontade de ir pra praia, de ficar em casa, de estar com os filhos, de namorar, etc.


Quer dizer, quando escolhemos fazer um trabalho, precisamos reter, segurar, reprimir uma certa quantidade de energia, que fica sob pressão. Esse é só um primeiro exemplo para começarmos a entender o que seria essa dinâmica psíquica envolvida no trabalho.

Que o trabalho sempre resulte numa pressão no nosso mundo interno não é um problema em si. Mas nos traz a notícia de que nenhum trabalho acontece sem uma certa dose de angústia ou ansiedade. Quer dizer, não existe nenhum trabalho que seja só felicidade, realização de propósitos e/ou acúmulo de dinheiro. Essa é uma idealização, que só serve pra aumentar ainda mais a pressão.


Essa certa dose de angústia ou ansiedade acontece porque a própria necessidade de trabalho está atrelada a uma necessidade de sobrevivência: trabalhamos para sobreviver, ou em outras palavras, pra fugir da miséria, da fome, da morte. Então, uma certa dose de angústia ou ansiedade é uma condição de qualquer trabalho.

Um pouquinho de angústia é até bom, porque nos impulsiona, nos alavanca, nos faz querer sair do mesmo lugar e buscar algo além. Se não sentíssemos angústia nenhuma, qual seria nossa motivação para sair da cama de manhã?


E, nessa dinâmica psíquica do trabalho, vamos desenvolvendo formas de lidar com as pressões, as angústias, as ansiedades e os medos: aquilo que Christophe Dejours chamou de “Estratégias defensivas”.


Essas estratégias que nós desenvolvemos são inconscientes e nos protegem do excesso de angústia, ao mesmo tempo em que elevam a nossa produtividade. Um exemplo é a situação que vivemos quando temos medo de perder o emprego: focamos mais nas nossas entregas, estamos mais atentos ao nosso desempenho; ou quando vivemos uma mudança de chefia ou uma fusão da empresa, e desenvolvemos estratégias em grupo que geram uma sensação de proteção. Essas são estratégias defensivas para lidarmos com esses sentimentos que fazem parte de qualquer trabalho.


Sabemos que esses sentimentos são incômodos mas, ao mesmo tempo, eles nos ajudam a desempenhar o nosso trabalho. Em certas situações, são capazes de produzir uma melhoria geral da nossa saúde ou até de garantir a nossa sobrevivência, como no caso dos trabalhadores que lidam com o perigo no dia-a-dia, como na construção civil ou nas plataformas de petróleo. Uma certa dose de ansiedade ajuda o trabalhador a ficar atento, tomar precauções e evitar acidentes que podem ser fatais.

Mas, e a Burnout?


Diferentemente dessa angústia que nos coloca em movimento, no caso da Burnout, estamos diante de um excesso de angústia, de medo, de preocupações ou ansiedade.

O problema da Burnout começa, em primeiro lugar, quando ultrapassamos um limite das nossas Estratégias Defensivas e não temos como descarregar essa sobrecarga de sentimentos negativos. Nessas situações, ficamos frustrados e nos sentimos ameaçados. Há um comprometimento do nosso equilíbrio psicossomático e começam a surgir os sintomas da Burnout, como o sentimento de fracasso, o cinismo, a negatividade, os sentimentos de incompetência, de nunca estar à altura das exigências do trabalho.

Essa limitação das Estratégias Defensivas se dá, muitas vezes, por conta da Organização do Trabalho (mencionada no texto 2).


Em segundo lugar, o problema se desenvolve quando o trabalho rompe os nossos limites psíquicos de fadiga, e isso pode acontecer por excesso de atividades ou mesmo por uma falta de atividades: pela monotonia do trabalho.


Isso pode parecer um contrassenso, que a fadiga se dê por conta da monotonia. Estamos acostumados a pensar a fadiga só do ponto de vista biológico ou fisiológico, quando ela acontece por excesso de atividade. E a recuperação da fadiga se dá pela inatividade, quer dizer, pelo descanso. Mas, do ponto de vista da nossa dinâmica mental, a inatividade ou a monotonia no trabalho é diferente dessa inatividade do descanso.

No trabalho, a inação e a monotonia vão, com o passar do tempo, gerando um acúmulo de energia psíquica que não encontra descarga e, com isso, a situação de trabalho vai se tornando extremamente fatigante. E a fadiga vai se manifestar tanto psíquica quanto fisicamente.


Então, numa situação onde se juntam a falha das defesas psíquicas contra os sentimentos negativos que o trabalho provoca e a fadiga, surgem sinais e sintomas da Burnout. O corpo começa a se manifestar com dores de cabeça, alterações no apetite, pressão alta, dores musculares, problemas gastrointestinais e até mesmo alterações nos batimentos cardíacos. E a mente começa a perder sua versatilidade e sentimos dificuldade para nos concentrar, o humor sofre mudanças repentinas, começamos a nos isolar dos outros.


E, além de tudo, a Burnout tem uma sutileza: não percebemos que estamos caminhando para ela!


Essa é uma questão central, e certamente uma das razões pelas quais temos dificuldades em cuidar desse assunto.


E porque que, em geral, não percebemos?


Primeiramente porque, muitas vezes, embora vivenciado, o sofrimento não é reconhecido.


As mesmas Estratégias Defensivas Inconscientes que acabamos de citar, que servem pra evitar que entremos em contato com os sentimentos incômodos que vão sendo causados pelo trabalho, atuam impedindo que tenhamos uma percepção clara: normalmente, se aumenta o incômodo, aumenta a defesa. E então vamos sofrendo silenciosamente, sem olhar para o que está se passando dentro de nós. Não olhamos, não nomeamos, não cuidamos.


O segundo motivo para não percebermos é a falta de uma Cultura Psi nas empresas. Infelizmente, hoje, os sistemas de detecção de problemas voltam seus olhares para a produtividade. Então, antes de detectar o sofrimento psíquico, o sistema detecta a queda na produtividade do funcionário, do colaborador. Quer dizer, o diagnóstico está voltado para o sintoma, não para a causa desse sintoma.


E, por fim, porque as soluções, quando acontecem, seguem esse diagnóstico, estão justamente voltadas apenas para os sintomas e não para as causas, o que acaba aumentando o problema. Por exemplo: a produtividade cai e, ao invés de cuidar da saúde mental da pessoa, ela é transferida de setor. Ou quando ela recebe um diagnóstico físico acompanhado de um atestado, que dá alguns dias de licença, mas nenhuma mudança efetiva acontece na rotina de vida ou de trabalho dela. Quer dizer, você não resolve o problema e ainda aumenta o absenteísmo.


Dessa forma, a Síndrome de Burnout costuma ser detectada só depois que a crise já está completamente deflagrada.



Para lidar com esse problema que afeta cada vez mais pessoas e evitar que os seus colaboradores cheguem ao ponto de serem afastados do trabalho por causa de tanto sofrimento, você precisa estar atento, estar atenta, a uma solução que se sustenta sobre um

tripé de cuidados:


1. É preciso ajudar o seu colaborador a se conscientizar da importância do cuidado de si. Neste sentido, a empresa pode oferecer treinamentos e atividades que vão favorecer o fortalecimento psíquico para que as pessoas desenvolvam resiliência e bem-estar geral.

Essa não é uma questão “externa” à natureza do trabalho. Repetimos infinitas vezes em nossos workshops: a primeira boa relação que você tem que ter é com você mesmo, você mesma.


2. É preciso desenvolver uma Cultura Psi. Em geral, os saberes Psi ainda são utilizados de maneira muito restrita pelas organizações. Algumas técnicas aparecem nos recrutamentos e seleção, alguns testes de perfil comportamental, assessments, avaliações, mas existe ainda alguma resistência ao proveito que a empresa pode tirar da experiência de um profissional com escuta clínica.


Mas atenção: não estamos propondo terapia no local de trabalho. Estamos falando do desenvolvimento de uma cultura e de um ambiente que acolha sem preconceitos as questões que envolvem o nosso bem-estar e o nosso sofrimento psíquico.

Um dos exemplos da nossa prática nesse sentido é a “Experiência de Escuta”, que acolhe e encaminha as questões do mundo interno dos colaboradores, sem ser uma terapia.


O importante do desenvolvimento de uma Cultura Psi é que cada pessoa tem um limite diferente pra aguentar as pressões e as angústias do trabalho e é preciso que a organização esteja treinada para conhecer e respeitar esses limites. É preciso ter uma pessoa com habilidade e treinamento para reconhecer o estresse excessivo e ajudar os funcionários antes que eles entrem em Burnout.


3. A terceira dimensão de cuidado, a terceira base desse tripé, diz respeito ao aprimoramento da Organização do Trabalho a partir de estratégias humanizadoras que resgatem o nosso equilíbrio psicossomático. Por exemplo, valorizar a experiência narrativa compartilhada; adotar medidas como as que citamos no texto 2 sobre Burnout, em que empresas permitem que os funcionários trabalhem de casa, saiam mais cedo em um dia da semana, ou compreendam o papel deles na cadeia produtiva. Mas esses são apenas exemplos genéricos. Cada empresa, cada cultura corporativa, cada organização, guarda potenciais de aprimoramento que só podem ser descobertos a partir de um estudo caso a caso.


A Burnout é um assunto bem pouco simples, mas esperamos tê-lo simplificado. Se desejar saber mais sobre esse tripé de cuidados, não deixe de entrar em contato conosco. Vamos ter o maior prazer em ajudar.


Assista ao episódio "Burnout - Mudanças" no canal Relações Simplificadas aqui: