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Depressão Covid: porque é inédita e como o coronavírus nos afetará a longo prazo

O notável psicanalista Juan David Nasio analisa os efeitos emocionais da pandemia: “O deprimido Covid 19 não crê mais em nada”.



Juan David Nasio. Fonte: Divulgação




"Depressão Covid-19" é uma alegoria da alegria. Uma capa em amarelo, com letras azuis, vermelhas, e a palavra fatídica em preto. Cor e esperança nos dias mais sombrios da epidemia que controla o planeta. O Dr. Juan David Nasio está publicando seu livro número 25 em meio à pandemia e assim o batizou. E acrescenta uma pergunta: "Todo mundo pode cair em depressão?"


Este psiquiatra e psicanalista franco-argentino, que veio para a França em 1969 para estudar junto a Jacques Lacan, hoje é professor, com seus livros traduzidos para 14 línguas. Discente por mais 30 anos na Universidade de Paris VII e com um seminário na Ecole Freudiane de Paris, foi fundador dos Seminários Psicanalíticos de Paris. Em 1999 o governo francês o condecorou com a Legião de Honra, e posteriormente com o título de Cavaleiro. É Doutor Honoris Causa por universidades em Buenos Aires, Rosario e em Córdoba.


No seu consultório em frente ao Sena e em plena epidemia, o Dr. Nasio descobriu que seus pacientes estão cada vez mais angustiados e deprimidos, em meio à crise de saúde e ao compasso das medidas restritivas. Nesse contexto, ele decidiu batizar o novo fenômeno de "depressão Covid" e começou a escrever. Suas conclusões foram discutidas em uma longa conversa com o Jornal Clarín, em seu estúdio em Paris.


--Quais foram os efeitos do Covid 19 na saúde mental?


--Mais do que os efeitos da própria Covid 19 na saúde mental, são os efeitos da crise de saúde produzida pela Covid 19. Um fenômeno curioso aconteceu comigo. Recebo pacientes e vejo que todos aqueles que estiveram deprimidos nos últimos meses, é pelo mesmo motivo: um forte acúmulo de angústia. E isso me fez batizar essa depressão muito específica com o nome de "depressão Covid 19". Essa depressão é uma variante inédita da depressão clássica.


--Quais são as características dessa depressão epidêmica? Como ela se difere da depressão clássica?


--A depressão clássica é uma doença caracterizada pelo empobrecimento das emoções. As emoções ficam todas como adormecidas. Se caracteriza por uma tristeza tenaz e um retraimento crítico de si mesmo, vexatório. A pessoa deprimida pensa nela o tempo todo e fica deprimida. E se critica, se rebaixa. Também se caracteriza pelo fato de a pessoa se sentir cansada, o tempo todo cansada. Ela dorme muito, levanta-se e está cansada. Físicamente cansada e moralmente entorpecida, ela não sente vontade de nada. Isso é o que caracteriza a depressão clássica. A tristeza em depressão Covid 19 é tristeza com angústia, é uma tristeza ansiosa, é uma tristeza atormentada e também é uma tristeza irritável, é uma raiva, um desgosto.



O novo livro de Juan David Nasio. Foto: Noel Smart



--Por que ele está com raiva?


--O deprimido Covid 19 é um deprimido raivoso, porque sente que é maltratado, frustrado, privado. Ele não consegue mais lidar com a angústia, causada pelas frustrações e privações, devido a todas as medidas que estão sendo tomadas para deter esse vírus. E está com raiva do mundo e, acima de tudo, está com raiva do governo, porque sente-o incompetente. E agora, com as vacinas, porque repete-se o que já aconteceu com as máscaras. Na verdade, agora com vacinas estamos atrasados ​​na França, porque não há vacinas e porque não há freezers para vacinas. Então, o deprimido Covid 19 é crítico, ele recrimina. É uma recriminação. Ele também é contra os médicos, que estão na TV o tempo todo e têm posições um tanto hipócritas e falsas. O deprimido Covid 19 não acredita mais em nada.


--É como um "colete amarelo" psiquiátrico?


--Exatamente. Ele se sente ameaçado e triste porque não aguenta mais. É por isso que digo que na depressão de Covid 19 a tristeza é uma tristeza ansiosa, é uma tristeza atormentada e uma tristeza irritável.


--Você diz: "A angústia se torna corrosiva e, diante da angústia da crise de saúde, essa pessoa se torna 'vingativa'. Depois, ela fisicamente se esgota e, moralmente, cai em depressão." Como são essas etapas?


--Isto é muito importante. O fenômeno que ocorre primeiro é a crise sanitária, a realidade. Há uma realidade que existe. Essa realidade, para aquelas pessoas muito sensíveis, é produzida pela angústia, que se acumula, se amplia. E a angústia é tanta que chega como um paroxismo de angústia e aí se transforma em exasperação. Em segundo lugar, a pessoa já tem acessos de raiva, está com raiva do mundo. De repente, em uma terceira etapa, ele fica cansado, exausto. Ela está desencantada, ela perdeu toda a ilusão, ela perdeu toda a esperança. E depois disso, depressão. Depois, crise de saúde, frustrações e privações da crise de saúde, angústia, exasperação, lassidão, e logo tristeza depressiva.





--Quais são as quatro angústias da Covid?


--A angústia de Covid 19 tem quatro motivos. Em primeiro lugar, a angústia, o medo da doença, de adoecer e, sobretudo, de morrer sozinho no hospital. Porque isso não é apenas estar doente. É também falecer sem que sua família possa se aproximar. Então, o angustiado tem medo de morrer sozinho ou às vezes de contaminar alguém da família ou um amigo.


--E depois?


--A segunda angústia de Covid 19 é o problema do confinamento, do isolamento. É a angústia de estar isolado. Estamos confinados hoje. Houve confinamento, depois não-confinamento e depois a volta ao confinamento. Estamos numa situação em que o primeiro confinamento e o segundo são totalmente diferentes. No primeiro confinamento saímos pelas janelas às 8 da noite para aplaudir o povo. Foi um confinamento silencioso e resignado. Esse novo confinamento é profundamente indisciplinado. Estamos em rebelião contra este confinamento. Estamos mal, estamos perdidos. Porque é um segundo confinamento que mostra que a ilusão que tínhamos de que esta epidemia ia acabar, descobrimos que esta epidemia continua.


--E que efeitos isso terá mentalmente a longo prazo?


--Eu acho que o ser humano é maravilhoso, porque sabemos nos adaptar. A diferença entre os humanos e todas as outras espécies animais é que sobrevivemos porque nos adaptamos. Esta é uma ideia antiga de Darwin. Como consequência, vamos ter que nos reajustar. Mas, no momento, ocorre uma luta entre a adaptação que temos que fazer e a dor de ter que fazer um esforço para nos adaptar. Depois o isolamento, a angústia de estar isolado. E também o contrário, estando confinado, existe a angústia de estar com o outro próximo demais. Tenho pacientes que me ligam e falam: "Não aguento mais meu parceiro, ele fica em cima de mim o tempo todo." Ou "Ele quer fazer amor o tempo todo" ou "Ele quer ir para a cozinha", "Não estou acostumada a morar com ele há tanto tempo."


--Quer dizer, não há distância, nem privacidade.


--Não há privacidade. Então, ou o outro está faltando ou o outro nos pesa. Esse é o segundo tipo de angústia. O terceiro tipo de angústia da Covid 19 é a angústia da incerteza econômica. Ou seja: não sabemos o que vai acontecer, como vai evoluir o trabalho e a empresa. Como o país ainda vai evoluir economicamente. Portanto, há o medo de que o trabalho seja ausente ou que meu trabalho seja tirado de mim.


-- E a quarta angústia?


--Para mim é o mais profundo: é a angústia de que falta um futuro. Não há linha do horizonte, não há horizonte definido. Vivemos numa época em que não podemos projetar nada. Não sabemos o que vai acontecer em cinco semanas. Não sabemos se haverá feriado ou não em fevereiro. Não podemos projetar. Existem empresas que têm projetos de desenvolvimento, fusões com outras empresas. Existem projetos muito importantes a nível urbano, a nível de país. É difícil projetar o futuro porque não há futuro, não há linha do futuro. Então, essas são as quatro principais ansiedades.


--Essas restrições de movimento, como são vivenciadas? Elas são consideradas um ataque à liberdade?


--É verdade, há muitas pessoas entre nós que não apoiam medidas restritivas. Aí não existe angústia, mas sim indignação. Eles se sentem indignados, com raiva, rebeldes contra qualquer medida que atente contra a liberdade. Sentem que são tratados de maneira infantil e que estão privados da liberdade natural do ser humano, que também está em todas as constituições. Essas medidas restritivas foram experimentadas e são experimentadas por muitos de nós como um ataque à privacidade e às decisões que podemos tomar.


--"Existe outra opção?"