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O Papel Higiênico e Nossa Saúde Mental

Há pouco mais de um mês o COVID-19 (Coronavírus) chegou ao Brasil com força. E, em maior ou menor grau, todo mundo passou a ter a sensação de que a vida saiu do controle.




Diante dessa sensação de perda de controle, diante de tantas providências a serem tomadas, muitas pessoas foram aos supermercados fazer estoque… de papel higiênico. Nos debruçamos sobre essa questão porque, ainda que pareça só um detalhe nesse turbilhão de coisas acontecendo, não se trata apenas de um detalhe! Esse fato fala muito sobre a nossa saúde mental neste momento. Sobre o que está acontecendo dentro do nosso mundo interno, sobre como estamos sentindo (e reagindo!) a tudo o que está acontecendo.


E é da nossa saúde mental que queremos tratar: como cuidar dela para não deixar que a situação fique ainda pior. A situação é gravíssima, o desafio é mundial e a ameaça é real. E, nessa situação temos observado que o nível de sofrimento psíquico, emocional, está altíssimo: muita gente com medo, insegurança, angústia e ansiedade, muita gente se sentido desamparada, muita confusão, enfim, um cenário perfeito pra ficarmos todos um pouco enlouquecidos.


Comprar muito papel higiênico parece só mais um sinal desse enlouquecimento, que se reflete em todo mundo, em todo “o” mundo - não apenas no Brasil.

Fonte

A imagem acima é da Austrália e a gente sabe que esse fenômeno está acontecendo também nos Estados Unidos, na Europa e em outros países da América do Sul, por exemplo. Estes dois fenômenos, o sofrimento emocional e a busca desenfreada por papel higiênico estão ligados.


Eles estão ligados à forma como nos relacionamos com a noção de controle. E isso Freud explica.


Em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud fala sobre o desenvolvimento do psiquismo da criança. Ele descreve um momento em que o controle se torna um importante meio de manifestação dos nossos impulsos psíquicos primitivos. Ele se refere à segunda fase da evolução libidinal, que ele chamou de Fase Anal. Para explicar de maneira bem simplificada a relação do controle e deste período do desenvolvimento, basta pensarmos que normalmente é neste período que acontece o desfralde. É quando a criança começa e entender que ela não pode fazer as necessidades dela onde quiser.


Ela passa a ter que se controlar para ir ao banheiro. A forma com que a criança lida com o controle do próprio corpo vai influenciar no desenvolvimento e na forma como a pessoa lida com o controle para o resto da vida.


A partir dessa fase do desenvolvimento, em grande medida, passamos a nos basear em uma ilusão de controle sobre os aspectos da vida para nos organizarmos psiquicamente.


Em outras palavras, quando sentimos que temos controle sobre as coisas, fica mais fácil nos acalmarmos e projetarmos as nossas ações.


Só que o controle absoluto é uma ilusão. A vida sempre nos surpreende com pequenos eventos que escapam ao nosso controle. E quando surge um grande evento, como o Coronavírus, que derruba a nossa ilusão de controle em escala global, é comum que surjam sentimentos de ameaça, vulnerabilidade, medo.


É comum que o sofrimento psíquico tome conta das pessoas e muita gente regrida a essas organizações mentais mais primitivas.


Já vimos que situações de grande descontrole, muitas vezes, levam as pessoas a regredirem para organizações psíquicas mais primitivas. Mas o fato de, por exemplo, o medo dar dor de barriga não é suficiente para explicar a corrida pelo papel higiênico.


Para entender esse fenômeno, é preciso ir além da materialidade e da função prática do papel higiênico, precisamos entender os significados que ele pode ter para uma mente em sofrimento:

O papel higiênico, assim como o álcool gel, os alimentos não perecíveis, as máscaras cirúrgicas, está sendo comprado em uma quantidade exagerada, chegando a deixar pessoas que precisam muito, sem nada.


Estes objetos são símbolos de controle, proteção, invulnerabilidade.



De certo modo, eles restituem a fantasia onipotente de controle. É como se fosse um esforço de se agarrar em algo que retire o sofrimento emocional de dentro de nós. Isto se caracteriza dentro de nós como uma fantasia: A de que, comprando aquilo tudo, você tira o seu sofrimento; você está com este objeto ali na sua frente, aquele tanto de álcool gel, então agora pode parar de sofrer, está seguro.


Não é fácil resolver essa equação, porém, se você está muito desorganizado internamente, se isso está te assoberbando, procure ajuda, procure um profissional de saúde mental.


Porque não adianta apenas comprar as coisas, correr para comprar as máscaras; se não sabemos nem as usar, por exemplo, aplicando a mão suja para arrumá-las, e acabamos nos contaminando do mesmo jeito.


Nessa luta imaginária contra o sofrimento que a sensação da perda de controle provoca, algumas pessoas são capazes até de partir para atitudes primitivas, como as mulheres que brigam no supermercado por causa do papel higiênico. Existe mais uma fonte que fala dessa associação, dessa ilusão de controle pelo papel higiênico, uma reportagem interessante do Fórum Econômico Mundial. Eles entrevistaram quatro especialistas para tentar entender por que as pessoas estão estocando papel higiênico. Um deles respondeu: “Papel higiênico simboliza controle. Nós o utilizamos para “arrumar” e “limpar”. Ele lida com uma função corporal que é um pouco tabu. Quando as pessoas ouvem sobre o Coronavírus, elas ficam com medo de perder o controle. E o papel higiênico parece uma maneira de manter o controle sobre a higiene e a limpeza.” O link para essa reportagem está aqui. Identificar esse processo acontecendo dentro de nós já pode ajudar muito a diminuir o nosso sofrimento, ao observar nossa tentativa de controlar o incontrolável, aceitar que o controle absoluto da vida é uma ilusão.


E uma segunda sugestão para não perdermos a cabeça ou sofrermos demais, é aceitar que as coisas vão ser diferentes em nossas rotinas por algum tempo. Mais ainda, que não sabemos quanto tempo vai durar tudo isso e que estamos todos juntos enfrentando uma ameaça contra a vida.


Aceitar que as coisas estão diferentes é vital para que todos colaborem para diminuir os riscos de contaminação e morte.


Aceitar pode não ser simples, mas pode ser simplificado se você compreender o que está em jogo nessa dinâmica psíquica. Assista ao nosso vídeo “Pelo direito de entristecer”, se tem interesse em ir mais fundo nesta questão.


É preciso entristecer porque a realidade hoje é esta. Tentar manter a ilusão de controle neste momento é como tentar segurar um gato desesperado. Só vai piorar as coisas.


É muito mais benéfico aceitar e tentar fazer a sua parte. A intenção deste texto foi lembrar que as dificuldades que a realidade apresenta influenciam o nosso mundo interno e a nossa saúde mental.


E que precisamos tomar as providências práticas para lidar com a realidade sem esquecer de cuidar da nossa vida psíquica. Porque ela pode piorar – ou melhorar! – a nossa relação com a realidade.


Vamos colaborar, lembrar que ninguém fica doente porque quer. Vamos ter consciência de que, se você está com o Coronavírus mas não está mal, outras pessoas podem não ter a mesma sorte.


Então faça o confinamento voluntário, peça ajuda, ajude e cobre das autoridades transparência, apoio efetivo e políticas públicas sérias, sobretudo para ajudar as populações que ficarão mais vulneráveis com a parada das atividades cotidianas. V


amos certamente precisar de muita tolerância, calma e paciência uns com os outros para não deixar essa pandemia se transformar num pandemônio.


Se cada um fizer a sua parte, voltamos à normalidade mais rápido.

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