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Pelo Direito de Entristecer

Neste texto você é nosso convidado para descobrir como, ao falar de tristeza, chegaremos na leveza, na criatividade e na felicidade.



Porque é preciso falar sobre direito à tristeza? Vivemos em uma época onde é normal mostrar para os outros apenas as partes boas da vida. O que vemos nas redes sociais são apenas pessoas felizes, mostrando seus melhores momentos, os bons jantares, os encontros com a família... Então, quando ficamos um pouco tristes, além de tristes, ainda nos sentimos derrotados, incompetentes, em suma, a pior das pessoas. Pode parecer, ainda, que somos os únicos que não conseguimos nos sentir felizes, por isso, no final, acabamos nos sentindo também excluídos.




Estamos perdendo a tranquilidade diante da tristeza comum. E isso foi enormemente intensificado pelo mundo de idealizações de felicidade propagadas nas redes sociais. O problema começa quando começamos a acreditar em tudo o que vemos nelas. Acaba-se entrando nessa loucura de que a vida tem que ser sempre boa, bem-sucedida. Você pode sim ter uma vida boa, mas isso não exclui sentir-se triste de vez em quando. O que dirá se sua vida é boa ou não, não é a ausência de momentos de tristeza, mas a capacidade de lidar bem com estes momentos. Conseguir elaborar a tristeza, dar sentido e significado para o que causou esse sentimento e ressignificar os seus momentos difíceis.



É assim que podemos superar os acontecimentos difíceis de nossa vida e extrair algum aprendizado deles. É bom deixar claro que o objetivo aqui não é glorificar a tristeza ou desejá-la para ninguém. É preciso ter ferramentas para compreender que a tristeza faz parte da vida e é fundamental reconhecê-la, não negar esse sentimento, não empurrar para baixo do tapete. Também é importante deixar claro que tristeza não é depressão. Muitas pessoas ficam tão preocupadas em não sentir a tristeza que quando sentem o menor sinal de que estão ficando tristes chegam a confundir tristeza com depressão. A tristeza é um sentimento difícil, mas não passa disso: um sentimento difícil. Ela é muito importante para nós, porque nos ajuda a dar um novo sentido para as perdas e frustrações. Então, ressaltamos: tristeza é só um sentimento que faz parte da vida. Sua vida não vai ser menos boa porque você ficou triste de vez em quando. Existe também um aspecto muito interessante e extraordinário na tristeza. Tudo começa com uma teoria apresentada por Melanie Klein. Klein foi uma psicanalista que lutou para dar continuidade ao trabalho de Sigmund Freud, desbancando a própria filha dele, Anna Freud, como sucessora intelectual do inventor da Psicanálise. Ela postulou a Teoria das Posições. É uma teoria ampla, profunda e complexa, por isso a representaremos de uma maneira mais simplificada. Discorreremos sobre como você pode se relacionar com ela e observar, na prática, em você e nas suas relações, os seus efeitos. Basicamente, em sua forma original, a Teoria das Posições mostra que, subjetivamente, estamos sempre ocupando um de dois lugares, que pode ser a Posição Esquizoparanóide ou a Posição Depressiva. Só pra deixar claro, estes nomes apavorantes são apenas conceituações técnicas. Não devemos confundir a posição depressiva com o estado de depressão patológico que requer intervenção medicamentosa e tratamento psiquiátrico. Para todos os efeitos, esse nome significa que ao falar sobre a Posição Depressiva estamos nos referindo à uma posição subjetiva na qual somos capazes de entristecer. Outro aspecto importante que é preciso deixar claro antes de começarmos a estabelecer e discutir essas duas posições é que todos nós, sem exceção, oscilamos entre elas. Estes estados não são definitivos, em um mesmo dia, uma mesma hora, ou um momento, você pode variar de uma para a outra. A Posição Esquizo Paranóide se caracteriza por pouco contato com a realidade. Nessa posição, estamos em contato apenas com a nossa realidade interna, estamos voltados ao princípio do prazer. É uma posição em que generalizamos, sentimos uma desorganização interna, predominando em nós sentimentos conflituosos, de revolta ou de negação. Um lugar subjetivo marcado pelo sofrimento, ainda que negado.




É uma posição em que enxergamos a vida pelos extremos, nos radicalizamos, nos comunicamos menos, resultando em uma relação muito mais difícil com o outro. Quando nos encontramos nessa posição, podemos atacar o vínculo com as outras pessoas. É uma posição em que entramos na lógica do "ou". “Ou você está comigo, ou você está contra mim”. Por isso a comunicação e o vínculo são tão difíceis quando nos encontramos nessa posição. Então, em que posição é preferível estar? Na Posição Depressiva. Ela é marcada por sentimentos de organização interna, aceitação e leveza, assim como pela clareza de sentimentos e pela criatividade. O sentimento de aceitação vem do fato de estarmos em contato com a realidade como ela é. Você entra em contato com os fatos, aproxima-se da ideia de que, às vezes, o mundo não é como você gostaria que fosse. E é capaz de entristecer com isso. Nesta posição, há uma mudança de lógica, da exclusiva - “ou você está comigo ou está contra mim” - para a inclusiva, ninguém é só bom ou só mau. As pessoas são ambivalentes, possuem incoerências. A partir destas ideias podemos começar a lidar de outra maneira com o que está nos acontecendo. Nesse sentido, apenas quando estamos nessa posição encontramos a possibilidade da comunicação com o outro, é aí que se dá a empatia de verdade, é aí que se forma o vínculo. Melanie Klein insere uma nova ideia no nosso imaginário, a beleza de entristecer, mais do que isso, a necessidade de reconhecer estas situações para conseguir estar inteiro, inteira. A criatividade vem depois dessa tristeza. Criatividade como capacidade de solucionar os problemas vem depois de aceitar a vida como ela é. Se estamos na posição Esquizo-paranóide não desejamos uma vida com problemas, não aceitamos, nos escondemos, muitas vezes resultando em um sentimento de revolta. Melanie Klein começou seus estudos pesquisando as crianças. É do universo infantil que ela traz esses conceitos, que ficam bem claros com esse exemplo, que praticamente todo mundo já viveu:



Quando somos crianças, na época em que todas as nossas necessidades são atendidas por nossos pais, e pedimos água sentados no sofá, por exemplo, os pais pensam “Olha, que bonito ele pedindo água” e buscam a água para nós. Porém, alguns anos mais tarde, podemos pedir água, lá do sofá, e ouvir algo como: "Levanta daí, vai buscar!". Esta frase, "Levanta daí, vai buscar!", representa um motivo de frustração. Esse é o momento que o mundo diz para a criança que ela tem que fazer sozinha, por ela mesma. E então a criança, teoricamente, entristece. E isso é duro, é triste. Ela pensa: “Ninguém vai mais me trazer água no sofá?” É neste momento que a criança pode decidir levantar do sofá, ir até a geladeira, abri-la e decidir, ao invés da água, pegar um suco, por exemplo. É aí que pode aparecer a criatividade. Estes acontecimentos se repetem, de diversas formas, durante o resto da nossa vida. Vamos de encontro ao mundo querendo água, e o mundo às vezes nos diz que a água acabou, ou que você mesmo a busque. Cabe a você inventar, cabe a você entristecer, saber que as coisas podem não estar na sua mão, ou que não vão sair da maneira como você queria. Então cabe a você se perguntar “Como poderiam ser?”.



Existe beleza neste momento, de entristecimento, esse momento de realidade, e o salto que pode se suceder a partir daí. Há mais uma diferenciação importante entre as posições. A Posição Depressiva é um lugar a ser sempre buscado, pois além de aceitar as coisas como elas são e ficarmos mais inteligentes e mais criativos, a experiência do tempo tem uma dimensão que inclui as consequências dos nossos atos. É diferente da Posição Esquizo-paranóide, em que o tempo não passa de uma sequência de fatos. Então, em uma relação, saber que seus atos têm consequência sobre a outra pessoa, é fundamental, quer dizer, a Posição Depressiva também simplifica as relações. Não vamos negar que é um sentimento difícil, duro e que aceitar a tristeza nem sempre é algo que se faz porque se quer. Às vezes, necessitamos de tempo para elaborar isso dentro da gente. Além de tomar um cuidado, sim, para distinguir o que é tristeza de depressão, essa que precisa, sim, de cuidados intensivos. Mas gostaríamos de deixar aqui o convite para vocês experimentarem essa ideia, experimentarem essa posição, esse lugar. Um convite para saber que tristeza pode ser dura, que é um trabalho estar na Posição Depressiva, adentrá-la, aceitar que é uma coisa trabalhosa. Porém entender que depois disso pode vir a felicidade. Que depois disso você encontrará sua organização interna, e certamente encontrará criatividade. Esperamos que você tenha gostado deste texto. Se gostou, considere assistir o vídeo de onde ela se originou, é só clicar aqui:




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