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Pontalis, o pensador da amizade*


Hoje é dia de voltarmos a nossa memória a Jean-Bertrand Lefèvre-Pontalis, que faleceu no dia do seu aniversário de 89 anos, há exatos oito anos. Seu nome é conhecido por qualquer estudioso da Psicanálise pelo fato de ter sido autor, ao lado de Jean Laplanche, de uma das obras fundamentais do estudo desta disciplina: o Vocabulaire de la psychanalyse, lançado em 1967 e amplamente utilizado até os dias de hoje. A importância fundamental desta obra, que tomou oito anos para ser concluída e foi elaborada sob a direção de Daniel Lagache, reflete apenas uma parte da contribuição de Pontalis ao pensamento ocidental.


Aluno de Jean-Paul Sartre na universidade, colaborou muitos anos com a revista Temps Modernes, popular revista francesa na época pós Segunda Guerra. Neste mesmo período estabeleceu interlocuções amistosas com filósofos e escritores como Merleau-Ponty. Foi também professor de filosofia por formação, ao lado de Daniel Lagache (seu orientador no Centro Nacional de Estudos Científicos CNRS) e do amigo Jean Laplanche. Participou da fundação da Associação de Psicanálise da França (APF), em 1964, e posteriormente foi eleito como membro titular da entidade. Também em 1964 tornou-se membro do comitê de direção da revista Les Temps Modernes e, em 1970, cria a Nouvelle Revue de Psychanalyse, que reuniu nomes como André Green, Masud Khan, Didier Anzieu, Guy Rosolato, Jean Pouillon, Victor Smirnoff, Jean Starobinski, François Gantheret, Michel Schneider e Michel Gribinski.


Para Pontalis, Freud foi, e é, um grande amigo da humanidade.

Como professor, buscou a psicanálise por sentir falta de um lugar em que a palavra seja sua, e não prisioneira de um discurso retórico, controlado, próprio do catedrático. Ingressa, então, na Sociedade Psicanalítica de Paris, e, após uma entrevista de avaliação, passa a fazer análise com Jacques Lacan, além de frequentar seus seminários e, futuramente, escrever sobre a obra lacaniana.


A obra de Pontalis, sua escrita inconfundível, mistura-se organicamente a seu pensamento psicanalítico. Seu legado persiste, tanto no âmbito da psicanálise freudiana, lacaniana, quanto na literatura, na poesia. Como descrito em Halperin:


Pontalis não só nos fala, mas nos contagia com a sua visão poética da psicanálise. Sua leitura provoca uma alteração de ritmo e sensibilidade, uma evocação do poético presente em cada um de nós: ainda que eventualmente adormecido, facilmente nos coloca em uma frequência onírica de pensamento. Impossível não se deixar impregnar, principalmente na clínica cotidiana, em que se percebem as inspirações de Pontalis liberando a poesia para que flua mais livremente não só dentro de nós, mas norteando cada encontro com o outro.


Recebeu os prêmios Valery-Larbaud pelo livro Traversée des ombes (2003) e Médicis por Frère du précédent (2006), além do Grande Prêmio da Academia Francesa em 2011 pelo conjunto de sua obra.

Disponibilizamos uma entrevista que cedeu às páginas amarelas da revista Veja, semanas antes de seu falecimento. Na matéria, ele comenta a respeito de sua última obra literária, O Sonho de Monomotapa, lançado em 2009, onde reflete sobre as questões que envolvem a amizade. Segundo ele, Freud foi, e é, um grande amigo da humanidade.

Clique aqui para ler a entrevista completa.


*Texto adaptado do original de 2018.